terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sombras.


Ela nunca disse ser perfeita, e se coloca numa parede todos os dias. Ela espera suas respostas e como intervalos, crava suas unhas grandes em suas pernas até sangrar.
E ela ouve palavras que são engolidas como espadas, regurgita seu orgulho como fagulhas de vidro, e por fim se sente bem.
Ela vive em um cubo de aço, onde as paredes brancas são ilusões. E todas as noites ao trancar as portas, ela ganha mais um cadeado. Seria impossível chegar até ela enquanto ela acha que adormece. Se não fosse por esquecer alguns cadeados mal trancados... Talvez ela faça isso para que possam passar por algumas de suas portas, talvez ela esteja te convidando para entrar. Mas ela finge que dorme, pra receber qualquer migalha e resto. Com seu coração tremulo, ela relembra que migalhas e restos custam um preço que ela nunca pode pagar... Ela se levanta antes que você possa chegar, deixando em sua cama, apenas mais um rastro. E como toda sombra que se preze, ela se mete na sua escuridão sem fim, fechando mais alguns de seus cadeados...
Quando a noite se finda, o sol a acorda para mais um dia de sua luta irremediável. Suas pernas caminham todas as manhãs pelo mesmo caminho, nunca ousam errar a direção. Enquanto ela se dirige para mais um interrogatório do próprio reflexo. Espera suas respostas...
De volta pra casa, no mesmo caminho, ela começa a jogar as chaves fora, com esperança de que não seja tão difícil receber migalhas dessa vez... Mas algumas chaves ela não sabe onde deixou.
Adormecida na angustia da espera, ela percebe que os tons começam a surgir tímidos... sente que o sangue gela, mas continua... Ela ouve passos, sente um toque doce e suave em seu rosto. Ela gosta disso!
Tem esperanças de que possa abrir os olhos sem que eles suportem a dor, da escuridão. Porem os mantém fechados. Ela quer que aquele toque macio, suave, tímido, continue. Ela começa a sentir que as cores estão vibrantes, começa a perceber o perfume que elas trazem. Ela sente o abraço, beijos, e todos os toques. Maiores do que as meras migalhas.
Os olhos se abrem, se esbaldando em cores vibrantes! Ela começa a distribuir suas chaves, mesmo sabendo que algumas ela perdeu. Assim quando anoitecer, suas pernas mecânicas forem retiradas, que ela possa ser encontrada, retirada do vazio.
Ela não se sente bem onde está, e se esquece que aquela porta está sem cópia da chave, ela espera ouvir passos... E toques se transformam a mão macia, agora começa a pesar... A ferver, e se encher de sentimentos que fervem. Querem entrar, sabem que ela está lá. Porém ela não sabe qual caminho errou, e nem onde estará as chaves, e começa a achar outras portas, e sumir em sua escuridão sem fim.
Passos transformam-se em chutes, querem passar pela porta! Ela corre, procura chaves, se esforça, não pode responder... Onde posso achar as respostas? Sem o sol, sem as unhas cravadas na pele. Onde deixei as chaves?
Ela se desespera, chora e grita, implora... Ela se sangra vasculhando todo seu lixo no escuro. Ela se rasga e joga fora coisas que agora não importam mais. E se joga fora também, porque a porta era de aço, seus gritos foram em vão, meio aos chutes e pancadas do lado de fora...até que a sua própria voz desistiu e foi-se embora...
Ela adormece em uma de suas salas cheias de poeira, nem sequer a reconhece mais.
O sol a acorda, mais um dia de trabalho, suas pernas mecânicas que nunca falham, levantam-se. Levando-a aos mesmos caminhos...
Ela não suporta quando tenta gritar e o som do lado de fora é sempre maior, que não deixam uma só palavra ser ouvida.
Ela não suporta a dor de não poder explicar depois, como gritou com todas as forças, para que pudessem ouvir que também se sacrificou para poder abrir todas as portas possíveis.
Ela continua procurando as chaves, incansavelmente ela continua gritando, ela tem os dedos deformados de tanto procurar...
O que não entendem, é que quanto mais ela se desespera, mais ela se tranca sem chaves, e mais uma vez a porta dura de aço abafam sua dor e desespero.
Ela desiste, ela não consegue mais, e não é por falta de tentar... Seu corpo não pode mais! Ela está longe demais... As pancadas nas portas deixaram seu coração em plena hemorragia!
Ela volta a ser sombra, e prefere ficar ali por muito mais tempo. Até que seu corpo se regenere...
Até que as portas de aço sejam vencidas pelo respeito da espera, compaixão da doação sem cobrança, companhia sem corpos e com corações unidos e presentes, mesmo que ajam 50 portas... Respeito pelo espaço, pelo tempo.
Porque sombras não sentem! Sombras não choram, sombras não ferem... mas isso não quer dizer que elas não estejam ali.
Sombras são só sombras.

Um comentário:

Gabriela Nogueirol disse...

Como podes ser uma sombra, se toda vez que passa em algum lugar aonde as pessoas estão, traz luz? Impossivel.